Educação em crises climáticas: como usar o tema na redação
As mudanças climáticas também produzem uma crise educacional. Enchentes, secas, queimadas e outros eventos extremos podem interromper aulas, comprometer o transporte escolar, danificar materiais, afetar a alimentação dos estudantes e dificultar a recuperação da aprendizagem.
Em 2024, 242 milhões de estudantes em 85 países tiveram a escolaridade interrompida por eventos climáticos extremos. No Brasil, 1,17 milhão de crianças e adolescentes ficaram sem aulas, principalmente em razão de enchentes e secas. Os dados foram divulgados pelo UNICEF em uma coleção publicada em maio de 2026.
Além disso, a Resolução CNE/CEB nº 3, de 10 de julho de 2026, instituiu diretrizes nacionais destinadas a assegurar a continuidade educativa em contextos de crise e interrupção do calendário escolar.
Esse conjunto de informações oferece um repertório atual e produtivo para temas relacionados a mudanças climáticas, desigualdade, educação, infraestrutura, infância, direitos sociais e políticas públicas.
Como as mudanças climáticas afetam a educação
A suspensão das aulas é a consequência mais visível, porém não é a única.
Quando uma escola é atingida ou precisa interromper suas atividades, diversos serviços podem ser comprometidos:
- transporte escolar;
- alimentação;
- acesso a professores;
- distribuição de materiais;
- atendimento especializado;
- conectividade;
- acolhimento;
- acompanhamento pedagógico.
Por essa razão, a reabertura física da escola não representa, necessariamente, a recuperação completa da experiência educacional.
A interrupção temporária pode produzir prejuízos prolongados
Um evento climático pode durar alguns dias, enquanto seus impactos educacionais permanecem por meses.
Materiais são perdidos. Famílias precisam mudar de endereço. Professores também podem ser afetados. Rotas de transporte deixam de funcionar. Parte dos estudantes passa a trabalhar ou cuidar de familiares.
Nesse cenário, a interrupção inicial transforma-se em:
- ausência recorrente;
- redução do vínculo com a escola;
- dificuldade de aprendizagem;
- aumento da defasagem;
- risco de abandono.
Assim, uma crise ambiental pode ampliar uma desigualdade educacional que já existia anteriormente.
Por que os impactos são socialmente desiguais
Eventos extremos atingem comunidades inteiras, mas os grupos sociais não possuem os mesmos recursos para responder.
Uma família com acesso a equipamentos, internet, transporte e ambiente adequado consegue buscar alternativas temporárias.
Por outro lado, estudantes em situação de vulnerabilidade podem depender integralmente:
- da estrutura física da escola;
- do transporte público ou escolar;
- da alimentação fornecida;
- de materiais impressos;
- do apoio presencial;
- da rede de proteção local.
Consequentemente, o mesmo período sem aulas pode produzir efeitos muito diferentes.
Esse é um ponto importante para a argumentação: o fenômeno climático pode ser coletivo, mas a capacidade de recuperação é desigual.
O que significa continuidade educativa
Continuidade educativa não significa apenas transferir aulas presenciais para plataformas digitais.
O conceito envolve assegurar que o vínculo educacional permaneça durante e depois de uma crise.
Para isso, as redes precisam considerar:
- segurança dos estudantes e profissionais;
- comunicação com as famílias;
- alternativas pedagógicas viáveis;
- alimentação escolar;
- transporte;
- acessibilidade;
- busca ativa;
- diagnóstico das perdas;
- recomposição da aprendizagem.
A Resolução CNE/CEB nº 3/2026 organiza nacionalmente esse debate ao orientar os sistemas de ensino a planejar a continuidade do processo educativo em crises e emergências.
Como usar o tema como repertório na redação
O repertório deve exercer uma função argumentativa.
Não basta mencionar:
Segundo o UNICEF, milhões de estudantes ficaram sem aulas.
O dado precisa ser explicado.
Estrutura recomendada
Dado: eventos climáticos interromperam a escolaridade.
Mecanismo: escolas, transporte, energia e comunicação foram afetados.
Grupo vulnerável: estudantes com menor acesso a alternativas.
Consequência: aumento da defasagem e da desigualdade.
Relação com a tese: ausência de planejamento agrava os efeitos.
Exemplo
A interrupção das atividades escolares em decorrência de enchentes e secas evidencia que a crise climática também compromete direitos sociais. Segundo dados divulgados pelo UNICEF em 2026, 1,17 milhão de crianças e adolescentes brasileiros ficaram sem aulas em 2024 devido a eventos extremos. Esse impacto tende a ser mais intenso em áreas vulneráveis, nas quais a falta de transporte, conectividade e infraestrutura dificulta tanto a manutenção do vínculo escolar quanto a recuperação posterior da aprendizagem.
O repertório está produtivo porque:
- apresenta fonte;
- contextualiza o dado;
- identifica o grupo afetado;
- explica o mecanismo;
- conecta-se à desigualdade.
Eixos argumentativos possíveis
Desigualdade territorial
Regiões com infraestrutura precária enfrentam maior dificuldade para reabrir escolas e restabelecer serviços.
Exclusão digital
O ensino remoto improvisado não alcança estudantes sem equipamentos, internet ou suporte.
Infraestrutura escolar
Prédios não adaptados a enchentes, calor extremo ou falta de água tornam-se vulneráveis.
Segurança alimentar
Para muitos estudantes, a escola também garante alimentação regular.
Saúde mental
Perdas materiais, deslocamentos e ruptura da rotina afetam o bem-estar.
Abandono escolar
Interrupções prolongadas podem enfraquecer o vínculo e aumentar a evasão.
Planejamento público
A ausência de protocolos amplia o tempo de resposta e desorganiza a recuperação.
Como elaborar uma tese
Uma tese precisa apresentar uma interpretação do problema.
Tese pouco desenvolvida
As mudanças climáticas prejudicam a educação brasileira.
Tese mais precisa
A intensificação de eventos climáticos ameaça a continuidade da educação brasileira porque expõe a fragilidade da infraestrutura escolar e aprofunda desigualdades na capacidade de recuperação da aprendizagem.
A segunda formulação oferece dois caminhos claros para o desenvolvimento:
- fragilidade da infraestrutura;
- desigualdade na recuperação.
Como construir os parágrafos de desenvolvimento
Desenvolvimento 1 — Infraestrutura e serviços
Explique como enchentes, secas e ondas de calor afetam prédios, transporte, energia, água e alimentação.
Desenvolvimento 2 — Recuperação desigual
Mostre que estudantes vulneráveis possuem menos alternativas e podem acumular maior defasagem.
Cada parágrafo deve apresentar:
- afirmação;
- explicação;
- evidência;
- consequência;
- relação com a tese.
Proposta de intervenção
Uma intervenção consistente pode envolver três momentos.
Preparação
Agente: secretarias estaduais e municipais de educação.
Ação: elaborar planos de contingência para crises climáticas.
Meio: mapeamento de riscos, rotas alternativas, cadastro de estudantes vulneráveis e canais de comunicação.
Finalidade: reduzir o tempo de interrupção e preservar o vínculo escolar.
Resposta imediata
Agentes: redes de ensino, escolas, assistência social e defesa civil.
Ação: garantir comunicação, alimentação, acolhimento e alternativas pedagógicas acessíveis.
Finalidade: impedir o afastamento prolongado.
Recomposição
Agente: escolas e secretarias.
Ação: diagnosticar perdas e oferecer recuperação orientada.
Meio: avaliação, acompanhamento individual, reorganização curricular e busca ativa.
Finalidade: evitar que uma crise temporária se transforme em desigualdade permanente.
Erros frequentes
Reduzir o tema ao meio ambiente
O foco precisa incluir consequências educacionais.
Usar dados sem contexto
O leitor precisa saber o ano, a fonte e o que foi medido.
Propor apenas aula on-line
A solução ignora exclusão digital e diferenças territoriais.
Não discutir desigualdade
O impacto não é igual para todos.
Apresentar intervenção apenas depois do desastre
A preparação também precisa integrar a política pública.
Aplicação em aula
O professor pode trabalhar o tema em quatro etapas:
- leitura do dado;
- construção da cadeia causal;
- formulação de tese;
- proposta de intervenção.
Exercício
Complete:
Quando eventos climáticos interrompem as aulas, estudantes vulneráveis são mais afetados porque ____________. Como consequência, ____________. Para reduzir esse problema, o poder público deve ____________.
Depois, transforme as respostas em um parágrafo.
FAQ
Como as mudanças climáticas prejudicam a educação?
Podem danificar escolas, interromper transporte, energia, água, comunicação, alimentação escolar e atividades pedagógicas.
Esse tema pode ser usado como repertório no ENEM?
Sim, desde que seja relacionado ao recorte da proposta e ajude a explicar o argumento.
Posso citar o UNICEF?
Sim. Informe a instituição, o ano da publicação e o contexto do dado.
A escola deve apenas oferecer aula remota?
Não. Essa solução pode excluir estudantes sem acesso digital. A resposta deve considerar as condições locais.
O que é recomposição da aprendizagem?
É o conjunto de ações destinadas a identificar e enfrentar perdas de aprendizagem após interrupções ou dificuldades prolongadas.
Escolha um dos eixos apresentados, formule uma tese e produza um parágrafo que explique causa, grupo afetado e consequência. Depois, revise se o repertório realmente sustenta o argumento.


