Estudante analisando uma cartilha oficial de redação ao lado de uma folha de preparação para o ENEM.

Cartilha de Redação do Encceja 2026: o que ela ensina para quem vai fazer o ENEM

O Inep publicou, em 31 de julho de 2026, a nova Cartilha do Participante da Redação do Encceja. O documento apresenta as competências avaliadas, orientações para a produção do texto e exemplos comentados de redações. A publicação foi preparada para os participantes do exame que será aplicado em 23 de agosto.

Mas a cartilha também levanta uma dúvida importante:

quem vai fazer o ENEM pode utilizar esse material para estudar redação?

A resposta é sim, desde que o estudante compreenda que Encceja e ENEM não são provas idênticas.

Os dois exames exigem uma redação dissertativo-argumentativa e avaliam competências semelhantes, como domínio da escrita formal, compreensão do tema, argumentação, articulação das ideias e construção de uma proposta de intervenção.

Entretanto, eles possuem finalidades, escalas de pontuação e critérios específicos.

Por isso, a cartilha do Encceja pode ser usada como material complementar, mas não deve substituir a Cartilha do Participante do ENEM.

Neste artigo, você vai entender:

  • o que existe na Cartilha do Encceja 2026;
  • quais orientações também ajudam no ENEM;
  • quais diferenças precisam ser respeitadas;
  • como estudar com as redações comentadas;
  • quais erros evitar;
  • como transformar o documento em um plano de treinamento.

 

O que é a Cartilha de Redação do Encceja 2026?

A Cartilha do Participante é um documento oficial elaborado pelo Inep para explicar como a redação será avaliada.

A edição de 2026 apresenta:

  • o formato esperado para o texto;
  • as cinco competências avaliadas;
  • critérios de correção;
  • situações que prejudicam a nota;
  • orientações para o planejamento;
  • exemplos comentados de redações anteriores;
  • explicações sobre a proposta de intervenção.

O Encceja é destinado a jovens e adultos que não concluíram o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio na idade regular e desejam obter certificação.

No caso do Ensino Médio, a redação deve ser escrita em língua portuguesa e seguir o tipo dissertativo-argumentativo.

 

A redação do Encceja é igual à do ENEM?

Não.

Existem semelhanças importantes, mas também diferenças que impedem o estudante de tratar os dois exames como se fossem uma única prova.

Semelhanças

Nos dois casos, o participante precisa:

  • compreender o tema;
  • assumir um ponto de vista;
  • desenvolver argumentos;
  • organizar o texto;
  • utilizar recursos coesivos;
  • respeitar a norma escrita;
  • apresentar uma proposta relacionada ao problema.

As duas avaliações também utilizam cinco competências como referência para a correção.

Diferenças

A redação do Encceja:

  • está vinculada à certificação da educação básica;
  • vale de zero a dez pontos;
  • possui critérios próprios definidos em seu edital e em sua cartilha;
  • atende a um público e a uma finalidade diferentes.

A redação do ENEM:

  • vale até mil pontos;
  • é utilizada em processos de acesso ao Ensino Superior;
  • apresenta descritores específicos em cada uma das cinco competências;
  • possui exigências próprias para repertório sociocultural, projeto de texto e proposta de intervenção.

A redação do Encceja vale de zero a dez, enquanto a redação do ENEM utiliza uma escala de zero a mil.

Portanto, a nova cartilha pode ampliar o estudo, mas o candidato do ENEM deve continuar utilizando como referência principal a cartilha específica de seu exame.

 

O que o estudante do ENEM pode aprender com a cartilha?

 

1. A redação precisa responder exatamente ao tema

Um dos maiores problemas de quem escreve redação é acreditar que basta falar sobre o assunto geral.

Não basta.

O candidato precisa identificar:

  • o núcleo temático;
  • o recorte;
  • o problema apresentado;
  • a relação exigida pelo comando;
  • os limites da discussão.

Considere um tema hipotético:

Desafios para garantir a inclusão digital de idosos no Brasil.

O assunto geral é tecnologia.

O recorte específico é a inclusão digital de pessoas idosas.

Uma redação sobre inteligência artificial nas escolas, ainda que trate de tecnologia, não responderia ao tema.

Como aplicar ao estudo

Antes de escrever, transforme o tema em uma pergunta:

Por que a inclusão digital de idosos ainda encontra obstáculos no Brasil?

Depois, defina duas respostas possíveis:

  • falta de formação acessível;
  • inadequação dos serviços digitais.

Essas respostas podem se tornar os argumentos do desenvolvimento.

 

2. O texto precisa apresentar um ponto de vista

Uma redação dissertativo-argumentativa não é uma sequência neutra de informações.

O candidato precisa defender uma interpretação.

Isso significa que a introdução deve indicar:

  • qual é o problema;
  • por que ele persiste;
  • quais fatores serão analisados.

Exemplo de tese fraca

A inclusão digital dos idosos é um assunto muito importante para a sociedade.

A frase apresenta o tema, mas não constrói uma posição.

Exemplo de tese adequada

A inclusão digital dos idosos permanece limitada no Brasil devido à oferta insuficiente de formação tecnológica e à baixa acessibilidade de muitos serviços virtuais.

Nesse caso, a tese apresenta dois argumentos que podem organizar o desenvolvimento.

 

3. Argumentar não é apenas dar opinião

A cartilha reforça a necessidade de organizar ideias e sustentar o ponto de vista.

Para o ENEM, isso significa que cada parágrafo deve realizar um trabalho argumentativo.

Um bom desenvolvimento costuma apresentar:

  1. uma afirmação central;
  2. uma explicação;
  3. uma evidência ou repertório;
  4. uma relação com o tema;
  5. uma conclusão parcial.

Modelo

Em primeiro lugar, a ausência de formação tecnológica acessível dificulta a inclusão digital de parte da população idosa. Isso ocorre porque muitos serviços públicos e privados migraram para aplicativos sem que fossem oferecidas orientações suficientes aos usuários com menor familiaridade tecnológica. Nesse contexto, a exclusão deixa de ser apenas uma dificuldade individual e passa a representar uma barreira ao exercício da cidadania. Dessa forma, a digitalização de serviços, quando não acompanhada por políticas de formação, pode ampliar desigualdades já existentes.

O parágrafo não apenas declara que existe exclusão. Ele explica o mecanismo pelo qual ela ocorre.

 

4. Coesão não se resume ao uso de conectivos

Conectivos são importantes, mas a articulação textual não depende apenas de expressões como “além disso”, “portanto” e “nesse sentido”.

A coesão também é construída por:

  • retomadas nominais;
  • pronomes;
  • substituições vocabulares;
  • repetição controlada de palavras-chave;
  • progressão das informações;
  • relação lógica entre as frases;
  • manutenção do mesmo eixo argumentativo.

Exemplo com repetição excessiva

A exclusão digital afeta idosos. A exclusão digital dificulta o acesso a serviços. A exclusão digital também prejudica a autonomia.

Versão aprimorada

A exclusão digital afeta especialmente os idosos, pois dificulta o acesso a serviços e compromete a autonomia desse grupo.

A segunda versão não apenas evita repetições. Ela também torna explícita a relação de causa.

O site da ANNA VOX já possui um guia específico sobre conectivos que pode complementar esse estudo.

 

5. A proposta de intervenção precisa responder ao argumento

A conclusão não deve apresentar uma solução aleatória ou genérica.

A intervenção precisa enfrentar as causas discutidas no desenvolvimento.

Quando o texto apresenta como problemas:

  • falta de formação;
  • serviços pouco acessíveis;

a proposta deve corresponder a esses dois pontos.

Exemplo

Portanto, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em parceria com prefeituras e instituições de ensino, deve ampliar programas gratuitos de alfabetização digital para pessoas idosas, por meio de oficinas presenciais realizadas em bibliotecas, escolas e centros comunitários, a fim de desenvolver autonomia no uso de serviços públicos e financeiros. Paralelamente, empresas e órgãos governamentais devem adotar padrões de acessibilidade em aplicativos e páginas digitais, com interfaces simplificadas, suporte humano e linguagem clara, para reduzir as barreiras enfrentadas por esse público.

A intervenção é coerente porque responde às causas apresentadas.

 

Como estudar com as redações comentadas da cartilha

A leitura de uma redação bem avaliada somente produz aprendizagem quando o estudante analisa como o texto funciona.

Não basta ler e concluir que ele “está bem escrito”.

Use o procedimento abaixo.

Etapa 1 — Identifique a tese

Pergunte:

  • qual posição o autor defendeu?
  • quais causas ou consequências foram escolhidas?
  • como os parágrafos foram anunciados?

Etapa 2 — Localize o tópico central de cada parágrafo

Resuma cada desenvolvimento em uma frase.

Exemplo:

  • Desenvolvimento 1: falta de políticas públicas;
  • Desenvolvimento 2: naturalização social do problema.

Se não for possível identificar essa função, a organização do texto pode estar pouco clara.

Etapa 3 — Marque as explicações

Observe onde o autor responde:

  • por quê?
  • como?
  • com que consequência?
  • para quem?
  • em qual contexto?

Essas respostas mostram o desenvolvimento do raciocínio.

Etapa 4 — Analise o repertório

Não observe apenas qual referência foi usada.

Verifique:

  • ela foi explicada?
  • possui relação direta com o tema?
  • ajudou a comprovar o argumento?
  • foi retomada depois da citação?

Um repertório produtivo não aparece como enfeite. Ele desempenha uma função argumentativa.

Etapa 5 — Examine a progressão

Pergunte:

  • cada frase acrescenta uma informação nova?
  • o texto avança?
  • há repetições de ideias?
  • as conclusões decorrem das explicações anteriores?

Etapa 6 — Reconstrua o planejamento

Depois de ler a redação, tente descobrir qual poderia ter sido o projeto inicial.

Exemplo:

  • tema;
  • tese;
  • argumento 1;
  • argumento 2;
  • repertório 1;
  • repertório 2;
  • intervenção.

Esse exercício ajuda o estudante a perceber que uma boa redação não nasce pronta. Ela resulta de planejamento.

 

O que não deve ser transferido automaticamente para o ENEM

1. Escala de pontuação

O Encceja utiliza nota de zero a dez. O ENEM utiliza até mil pontos.

Não converta resultados entre as duas provas como se existisse uma equivalência direta.

2. Descritores das competências

Embora os exames utilizem cinco competências, os níveis e descritores precisam ser lidos na cartilha específica de cada avaliação.

3. Exigências de repertório

A Competência 2 do ENEM exige atenção especial à mobilização produtiva de conhecimentos de diferentes áreas.

O estudante não deve presumir que qualquer referência aceita em outro exame produzirá o mesmo efeito na correção do ENEM.

4. Estratégias prontas

Modelos rígidos, frases decoradas e conclusões genéricas podem gerar textos artificiais.

A cartilha deve ser utilizada para compreender critérios, e não para copiar estruturas.

5. Número mínimo de linhas

O fato de um texto possuir o mínimo formal não significa que ele esteja suficientemente desenvolvido.

No ENEM, um texto muito curto tende a limitar:

  • aprofundamento;
  • argumentação;
  • repertório;
  • coesão;
  • intervenção.

 

Plano prático de estudo com a cartilha

Dia 1 — Leitura dos critérios

Leia as cinco competências e escreva, com suas próprias palavras, o que cada uma avalia.

Não copie a explicação.

Transforme-a em uma pergunta de revisão.

Exemplo:

Meu texto deixa claro qual posição estou defendendo?

Dia 2 — Análise de uma redação comentada

Marque:

  • tese;
  • argumentos;
  • repertórios;
  • conectivos;
  • retomadas;
  • intervenção.

Dia 3 — Planejamento sem redação completa

Escolha um tema e produza apenas:

  • recorte;
  • tese;
  • dois argumentos;
  • repertórios;
  • intervenção.

Dia 4 — Produção completa

Escreva uma redação em tempo controlado.

Dia 5 — Autocorreção

Use uma tabela com as cinco competências e localize:

  • um acerto;
  • um problema;
  • uma ação de melhoria.

Dia 6 — Reescrita

Reescreva o parágrafo mais fraco.

A reescrita é mais produtiva que simplesmente abandonar o texto e iniciar outro.

Dia 7 — Nova produção

Escreva sobre outro tema, tentando aplicar conscientemente o que foi corrigido.

 

Checklist de revisão

Antes de considerar a redação concluída, verifique:

Tema e tese

  • respondi ao recorte exato?
  • apresentei um ponto de vista?
  • anunciei os argumentos?

Desenvolvimento

  • cada parágrafo possui uma ideia central?
  • expliquei como o problema ocorre?
  • demonstrei causas ou consequências?
  • utilizei repertório com função?

Coesão

  • as frases se conectam?
  • os parágrafos progridem?
  • evitei repetições desnecessárias?
  • usei conectivos adequados à relação lógica?

Intervenção

  • a solução responde aos argumentos?
  • existe um agente responsável?
  • a ação está clara?
  • expliquei o meio de execução?
  • apresentei uma finalidade?
  • respeitei os direitos humanos?

Linguagem

  • revisei concordância?
  • revisei regência?
  • conferi pontuação?
  • eliminei expressões vagas?
  • mantive a formalidade?

 

Erros ao estudar com a cartilha

Ler apenas os textos nota alta

O estudante precisa ler também os comentários dos avaliadores.

Eles explicam por que determinadas escolhas funcionaram.

Copiar a estrutura inteira

Uma redação comentada é um objeto de análise, não um molde para reprodução.

Decorar repertórios

Referências precisam ser compreendidas e relacionadas ao argumento.

Ignorar as diferenças entre as provas

Encceja e ENEM possuem semelhanças, mas não são avaliações equivalentes.

Utilizar apenas um documento

A preparação deve combinar:

  • cartilha oficial;
  • prática;
  • correção;
  • estudo de repertório;
  • revisão gramatical;
  • reescrita.

 

A cartilha do Encceja substitui a do ENEM?

Não.

A cartilha do Encceja pode ampliar o repertório de estudo porque apresenta orientações oficiais, competências e redações comentadas.

Entretanto, o candidato do ENEM precisa utilizar como referência principal a cartilha específica do exame.

Na página de documentos do Inep consultada em 3 de agosto de 2026, a edição mais recente listada para a Redação do ENEM era a de 2025.

Quando uma nova cartilha do ENEM for publicada, ela deverá ser lida integralmente, especialmente para verificar:

  • descritores;
  • exemplos;
  • orientações atualizadas;
  • situações de nota zero;
  • expectativas sobre repertório;
  • critérios da proposta de intervenção.

 

Perguntas frequentes

A cartilha do Encceja ajuda quem vai fazer o ENEM?

Sim, como material complementar. Ela ajuda a revisar estrutura, argumentação, coesão e intervenção, mas não substitui o documento específico do ENEM.

As cinco competências são iguais?

Elas avaliam dimensões semelhantes, mas cada exame possui seus próprios descritores e níveis de correção.

Posso treinar com os temas do Encceja?

Sim. Temas sociais utilizados no Encceja podem servir como prática de argumentação, planejamento e intervenção.

A redação do Encceja vale mil pontos?

Não. A escala do Encceja vai de zero a dez, enquanto a do ENEM chega a mil pontos.

Posso copiar uma redação comentada?

Não. O objetivo é analisar as estratégias utilizadas e construir um texto próprio.

Devo usar a cartilha de Ensino Fundamental ou de Ensino Médio?

Para quem está se preparando para o ENEM, a cartilha do Ensino Médio é a referência comparativa mais adequada.

 

Conclusão

A Cartilha de Redação do Encceja 2026 é um documento útil para quem deseja compreender melhor como uma banca oficial observa:

  • domínio da língua;
  • atendimento ao tema;
  • argumentação;
  • coesão;
  • proposta de intervenção.

Seu melhor uso não é a cópia de modelos.

O estudante deve utilizá-la para:

  1. compreender critérios;
  2. analisar redações comentadas;
  3. reconstruir planejamentos;
  4. revisar os próprios textos;
  5. identificar falhas;
  6. reescrever.

Para o candidato do ENEM, a regra é simples: aproveite os ensinamentos gerais da cartilha, mas preserve as exigências específicas do ENEM.

Uma preparação eficiente não depende de acumular modelos. Depende de compreender o que a correção avalia e aprender a controlar cada escolha do texto.